Escravos cibernéticos. Tom Coelho


Artigo enviado pelo palestrante.
Fevereiro de 2008

EscravosCibernéticos

* por Tom Coelho

“Atecnologia é uma ferramenta para ajudar as pessoas, não parasubstituí-las.”

(Keith Denton)

Sinto falta de minha amiga Márcia eresolvo telefonar-lhe para ter notícias.

Gentil como sempre, ela me atende deimediato, contando-me que perdeu o número de meu celular porque a empresasubstituiu seu aparelho e não transferiu, conforme fora prometido, a agenda detelefones.

Então passa a falar sobre seu novo “brinquedinho”, um smartphone,prêmio corporativo vinculado à sua merecida promoção. Márcia agora tem aindamais atribuições e responsabilidades. Por isso, a companhia decidiu serimportante conferir-lhe “conectividade plena”.

Ela agora pode ser encontrada aqualquer hora, emqualquer lugar. Pode gerenciar ações e pessoas de maneiraininterrupta, seja durante o horário chamado “comercial”, seja ànoite após sair de uma sessão de cinema, seja num domingo, em meio ao almoçofamiliar.

Há quase um ano eu não conversava comMárcia. E o que me causou certa apreensão foi saber que neste meio-tempo, naproporção em que subia no organograma, ela descia na escala de sua qualidade devida.

Interrompeu a prática esportiva querealizava com regularidade e exatamente no momento daquele meu telefonemaestava a caminho do ambulatório para checar certa indisposição acompanhada poralteração na pressão arterial. Detalhe: Márcia trabalha com gestão de pessoas,tem os olhos e a mente voltados à qualidade de vida.

Nada tenho contra a tecnologia. Aocontrário, sou apaixonado por ela. Costumo adquirir todo tipo de“gadget”, nome dado às quinquilharias eletrônicas produzidasdiuturnamente pela indústria. Mas vejo com preocupação o avanço das máquinassobre nossas vidas.

A tecnologia deve estar a nossoserviço para facilitar a comunicação e dar agilidade à tomada de decisões. Masisso não significa assentir a escravização eletrônica. Nos escritórios, oe-mail, a intranet e os mensageiros instantâneos enraizaram-nos nas cadeiras.Evitamos nos levantar para falar com um colega na sala ao lado, ou mesmo paraespairecer por cinco minutos enquanto bebemos uma água ou um café. Além dereduzir a sociabilidade, esta rotina perigosa é a mãe dos DORT –Distúrbios Osteomusculares Relacionados ao Trabalho, com destaque para aslesões por esforço repetitivo (LER) e a fadiga visual.

Nas residências, o computador estásubstituindo a televisão como instrumento de desagregação familiar. Adeus aodiálogo! Não há mais refeições coletivas, quando se poderia conversar, compartilhar,orientar, aprender e ensinar. Até mesmo o lazer e o desenvolvimento culturalestão sendo substituídos pelo Orkut, My Space e as salas de bate-papo.

Guardadas as devidas proporções,vivemos anos sem tudo isso e não precisamos nos render a todas as novidades quevicejam. Considero o celular um instrumento fantástico para ficar desligado.Quando necessito falar com alguém, ligo o aparelho e contato a pessoa.

Não sou um médico obstetra oucardiologista que precisa ser encontrado na calada da noite para um parto ouatendimento emergencial. Por isso, não quero um smartphone nem de graça!

* TomCoelho, com formação em Publicidade pela ESPM, Economia pela USP,especialização em Marketing pela Madia Marketing School e Qualidadede Vida no Trabalho pela USP, e mestrando em Gestão Integrada em Saúde do Trabalhoe Meio Ambiente pelo Senac, é consultor, professor universitário, escritor e palestrante. Diretorda Infinity Consulting, Diretor Estadual do NJE/Ciesp e VP de Negócios daAAPSA. Contatos pelo e-mailtomcoelho@tomcoelho.com.br. Visite: www.tomcoelho.com.br.

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